Evento APDC

03.10
Conferência



A 3 de Outubro, no CCB

Conferência “Portugal num Mundo Global”

As empresas do sector das TIC têm evoluído de uma forma radical nas últimas décadas. E são muito diferentes das empresas dos demais sectores de atividade, nomeadamente os mais tradicionais, já que "já nascem com vocação global e expandem-se rapidamente", afirma José Vital Morgado, administrador executivo da AICEP. E são elas que mais projetos individuais de internacionalização têm apresentado à AICEP, enquanto gestora técnica do QREN. De acordo com os números fornecidos por este responsável na Sessão de Abertura da Conferência, onde participou também o presidente da APDC, Rogério Carapuça, o atual QREN já fechou com 580 projetos de internacionalização, tendo as empresas TIC envolvidas têm 58 projetos no valor de 18 milhões de euros. Metade desse valor é representado por incentivos. A responsável pelo investimento e comércio externo, que aguarda o novo quadro comunitário, que entrará em vigor em 2014, tem apostado nos últimos anos numa estratégia diferente, de co-localização das delegações AICEP nas embaixadas portuguesas, no âmbito da diplomacia empresarial, e com o objetivo de trabalhar de uma forma mais eficiente.

Um inquérito promovido pela APDC e pela Accenture junto das empresas TIC sobre a internacionalização mostra que 14% das empresas portuguesas inquiridas têm um volume de exportações superior a 50% das suas receitas. Mais de 50% estão nos mercados africanos". Segundo Emanuel Agostinho, Senior Manager da Accenture, os mercados internacionais mais procurados são os geograficamente ou culturalmente mais próximos, sendo as estratégias várias: presença direta, exportações e alianças/parcerias". E entre os fatores facilitadores de uma aposta no exterior, o inquérito revelou que os mais relevantes são evolução em concreto do mercado externo, a diferenciação competitiva e competências tecnológicas. Já entre os inibidores, as condições fiscais dos mercados externos e a imagem que Portugal tem no exterior foram os mais referidos. Assim como a ausência de apoios/subsídios e os acessos a financiamento e liquidez".

Para analisar o caso específico de Israel, quanto case-study mundial na área das TIC, marcou presença na Conferência Oded Karev, VP Head of Strategy da NICE, uma empresa israelita que se transformou num player mundial de relevo na análise de dados em poucos anos. Para este responsável, Israel é um hub global de inovação e empreendedorismo. É o segundo maior do mundo em disponibilidade de venture capital, em start'ups lançadas anualmente e tem o maior número de empresas no NASDAQ fora dos EUA. Isto porque desenvolveu uma estratégia que promoveu a criação de um ecossistema baseado em tecnologia, que foi facilitado por uma rede de venture capital e pela implementação de uma cultura de empreendedorismo. Neste processo, o apoio governamental foi determinante, não apenas com legislação mas também em termos de financiamentos. O investimento público em I&D foi de 4,6% do PIB do país. Hoje, a cultura empresarial é de criar empresas desenhadas desde o seu primeiro dia com ambição de serem globais. E estas start'ups têm conseguido atrair investimentos de multinacionais provenientes dos mais diferentes domínios. Empresas como a IBM, a Microsoft ou a Google têm operações no país, graças à compra de empresas e aproveitando o talento. Para o gestor da NICE, Portugal terá se se questionar se conseguirá criar este mindset de pensar globalmente.

INTERNACIONAIS APOSTAM EM PORTUGAL

Apesar do reforço da internacionalização das empresas portuguesas, a ideia que persiste em muitos países sobre Portugal não é das melhores. Bem pelo contrário. Por exemplo, em França a visão que existe é mais negativa do que deveria ser, de acordo com Bernard Chantrelle, presidente da Câmara Comércio e Indústria Luso Francesa. Mesmo com o aumento assinalável das exportações portuguesas para aquele mercado, que já ultrapassaram mesmo as importações de França. Uma situação que resulta, em grande medida, das falhas na comunicação externa do Governo e das instituições públicas nacionais, insuficiente para informar sobre a real situação do país. Mas a visão que as empresas francesas presentes em Portugal já é completamente diferente e muito mais positiva. Com uma rentabilidade acima da média dos seus projetos, consideram que, apesar da crise, existem muitas oportunidades de negócio. Tendo Portugal boas infraestruturas e excelente qualidade de mão-de-obra, é também visto como uma porta de entrada para mercados de língua portuguesa. Pelo que mais de 50% das empresas de capital francês preveem investir. Nomeadamente nos centros de competência, dada a ótima localização do país. Mas há pontos negativos, com destaque para a burocracia, os tribunais e a regulação.

Também nos Estados Unidos a perceção sobre o mercado português é muito diminuta. Há "uma visão de um país pequeno, integrado numa geografia europeia mas periférico e com fraco potencial para desenvolver negócio. Com pouco interesse para investimento americano". O que não quer dizer que não existe uma aposta substancial das empresas americanas no mercado português. Segundo José Joaquim Oliveira, presidente da Câmara de Comércio Americana em Portugal, existem a operar em Portugal 130 empresas de origem norte-americana. Representam em receitas 13% do PIB e empregam 30 mil pessoas. E apesar de mostrarem algum desconforto face à situação económica, não há intenções de desinvestimento, mas de manutenção e de aposta no mercado português. Os impostos e a legislação fiscal em geral, a eficácia e celeridade da justiça, os atrasos nos pagamentos e grau de burocratização do sistema, sobretudo na AP, são considerados os maiores entraves pelas empresas americanas.

Para este gestor, apesar da captação de investimento direto estrangeiro e os níveis de exportação estarem a melhorar, estão ainda muito aquém do desejável. Acresce o cenário europeu e mundial, que condiciona o país, e a forte concorrência de países emergentes na captação de investimento norte-americano, como a América Latina. Por isso, há que ser "atrativo na captação de investimento", nomeadamente através de uma abordagem muito dirigida e de um plano estratégico diferenciador dos concorrentes. Um trabalho que terá de ser feito pelo Governo as também pelas organizações empresariais e pelas próprias empresas. E os "EUA não podem deixar de estar nos objetivos de captação de investimento. Investem muito dinheiro fora e são maior economia do mundo". E considera que "o que falta em Portugal é capacidade de execução. Temos gente capaz, mas é preciso investir, nomeadamente em recursos humanos".

As posições dos dois responsáveis pelas câmaras de comércio são também subscritas pelos responsáveis de algumas das grandes multinacionais presentes em Portugal", falaram sobre os respetivos investimentos em centros de competências no mercado nacional e das perspetivas de futuro. A Fujitsu, por exemplo, que tem um centro de suporte a clientes com 650 colaboradores, dos quais 40% são estrangeiros, tem como objetivo trazer mais investimento em novas áreas para o país, como refere o seu diretor-geral, Carlos Barros. Também a Altran, com um projeto na área de sistemas de informação e sistemas críticos, com um centro de competências no Fundão, aposta na expansão. Segundo Célia Reis, diretora-geral da subsidiária, foram a qualidade e as competências da equipa que levaram à decisão do grupo investir em Portugal. Convicta de que "os resultados de uma operação local são determinantes nas decisões de investimento de um grupo mundial", acredita que o envolvimento do Governo é determinante na promoção da imagem do país e na captação de investimentos. Sendo os países de Leste outros dos grandes concorrentes para a instalação de centros de competências, defende que Portugal terá que continuar a investir nas línguas e de reforçar a confiança e o empenho.

E quanto mais se acelerar a inovação na economia, mais facilitamos o investimento e nos tornamos competitivos, na perspetiva de Guive Chafai, Customer Engagement EMEA Global Customer Marketing & Communications da Alcatel-Lucent. Este grupo tem em Portugal três 3 centros de competência globais e dois centros regionais que empregam um terço dos efetivos da subsidiária. E que são centros únicos no grupo mundial, prestando serviços altamente especializados. Com um investimento mito mais recente nesta área, a SAP, que arrancou com o seu primeiro centro de serviços nacional em 2012, multiplicará no final deste ano o seu número de trabalhadores. Mais de metade trabalha no centro, onde se antecipam taxas de crescimento de três dígitos nos próximos anos, como referiu Paulo Carvalho, diretor-geral da SAP Portugal. Para este responsável, o custo unitário do trabalho baixou para todos em Portugal, nos últimos anos, pelo que se consegue ser mais competitivo. E não tem dúvidas que a formação profissional tem que ser uma grande aposta, assim como a exportação de executivos portugueses, "porque eles são os nossos melhores embaixadores".

PORTUGUESES QUEREM MAIS NEGÓCIO LÁ FORA

Já os líderes de alguns dos casos de sucesso de internacionalização, vindos de várias áreas de atividade, analisaram "Os caminhos para a internacionalização". Com estratégias, dimensões e opções distintas, todos apostam no reforço crescente das atividades nos mercados externos, como forma de compensar a conjuntura adversa que se vive no mercado nacional. A Mota-Engil é um gigante nacional que tem já 70% das suas receitas nos mercados externos. E no próximo ano, esse valor deverá subir para 80%, como antecipa Gonçalo Moura Martins, presidente da Comissão Executiva da holding do grupo português. A aposta surgiu por força das condições do mercado nacional e a empresa teve de mudar e aprender muito rapidamente para poder internacionalizar com sucesso. Hoje, tem o grupo tem 28 mil colaboradores, dos quais 6 mil estão em Portugal. E o gestor não tem dúvidas: "como multinacional, o mercado português é hoje o mais difícil de todos".

Também no caso da Novabase, "a motivação para a internacionalização foi claramente o crescimento da empresa", já que o mercado português estava estagnado. Hoje, a estratégia passa claramente por uma forte aposta na internacionalização e têm como  meta ter, a curto-prazo, 50% da sua atividade no exterior, como antecipa o seu administrador, Álvaro Ferreira. Também a SIBS iniciou há cerca de três anos o seu processo de internacionalização. E Pedro Hipólito, Managing Director da SIBS International, defende que "quem consegue abrir o mercado tem responsabilidade de ajudar os outros a lá chegar. Tem que haver uma rede de empresas portuguesas". Só com esta rede é que os empresários nacionais poderão concorrer com as grandes multinacionais. Outro exemplo de aposta no exterior é o da Maksen. A estratégia da empresa foi a focalização no que considerava fazer bem para poder diferenciar-se da restante concorrência, como explica António Lagartixo, Global Managing Partner da  Maksen. E não tem dúvidas de que "primeiro temos que ser bons a fazer cá dentro, para depois fazermos bem lá fora. Temos de ver onde está a diferenciação".

Uma ideia partilhada pelos demais gestores, que consideram esta a base de qualquer processo de internacionalização. Assim como ter uma empresa financeiramente saudável e adotar um modelo que passa por parcerias locais, para garantir o sucesso. A realização de parcerias terá que ser um processo informado e uma estratégia de médio e longo-prazo, onde as partes retirem ambas benefícios. A flexibilidade, a capacidade de mudança de cultura e a adaptabilidade são também condições de sucesso. Até porque nos mercados mais maduros, como o europeu, a marca Portugal não ajuda. Já em África, a marca tem força. E os profissionais portugueses têm qualidade e diferenciam-se no exterior pelas suas capacidades. Pelo que "Portugal tem que continuar a apostar num sistema de ensino de qualidade. É isso que faz a diferença".
 

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