Evento APDC

08.07
Conferência



A Importância do Investimento em Redes de Nova Geração

“Portugal em Fibra Óptica”


A garantia foi dada pelo Secretário de Estado Adjunto, das Obras Públicas e Comunicações. Na Sessão de Abertura da Conferência APDC "Portugal em Fibra Óptica: A Importância do Investimento em Redes de Nova Geração", Paulo Campos reafirmou a estratégia do Executivo de dar prioridade às RGN, como verdadeiras "plataformas de convergência tecnológica, que permitem um novo passo na oferta de serviços de banda larga e são cruciais para o desenvolvimento não só do sector das comunicações electrónicas como da economia em geral".
 
Perante esta prioridade estratégica, o Governo "decidiu marcar o rumo" com a recente Resolução aprovada em Conselho de Ministros, definindo uma estratégia de desenvolvimento destas redes, promovendo um mercado das comunicações electrónicas concorrencial e garantindo ofertas inovadoras. Segundo o secretário de Estado, "queremos promover um modelo de desenvolvimento baseado na concorrência ao nível das infra-estruturas e não apenas ao nível dos serviços", definindo-se ainda as áreas geográficas onde existe mais ou menos concorrência e as infra-estruturas alternativas existente. Para além do objectivo de eliminar as barreiras verticais e horizontais ao investimento em RGN, de forma a permitir um "investimento com maior eficiência".
 
Para concretizar as metas definidas, nomeadamente ligar um milhão de utilizadores em redes de alta velocidade até 2010, para além das ligações de escolas, universidades, hospitais e entidades públicas, a Anacom - Autoridade Nacional das Comunicações (que tem em curso uma consulta pública sobre RGN) terá de definir um quadro regulatório claro e que incentive os investimentos até ao próximo mês de Setembro.
 
Na mesma sessão, também Diogo Vasconcelos, presidente da APDC, destacou a importância das RNG como infra-estruturas decisivas para Portugal vencer o desafio da inovação, através de uma sociedade em rede assente na informação e no conhecimento. 
 
É preciso acelerar

"Nos últimos anos, deu-se uma mudança radical de perspectiva. E, para a maioria dos operadores a questão não é hoje se das RNG são necessárias, mas quando e como é que as vão desenvolver. A Europa está a atrasar-se face à Ásia e aos Estados Unidos na fibra e só os países nórdicos, com destaque para a Suécia, é que estão na frente do jogo", afirmou Benoit Falten, da Yankee Group. Para este responsável, que falava na sessão sobre "A Relevância das Redes de Nova Geração", as  coisas estão a acontecer "um pouco por todo o lado, mas a velocidades muito diferentes".
 
No caso da Suécia, por exemplo, definiu-se um modelo de livre acesso às redes que está a ser implementado na maior parte do país. "Os clientes podem escolher o fornecedor que querem e a oferta está a desenvolver-se rapidamente", num mercado que está a alcançar a maturidade, com uma oferta de triple-play já implementada e a avançar agora para o desafio dos conteúdos. "As redes podem oferecer muito mais que serviços de telecomunicações a toda a economia. Há uma utilização muito avançada para todas áreas. Estamos a dar os primeiros passos, mas a infra-estrutura vai mudar muitas coisas na nossa sociedade", referiu este responsável. Que citou ainda o caso da França, onde em Paris existem três projectos distintos, sendo o desenvolvimento muito rápido e a concorrência forte. "Há um conjunto de projectos municipais a serem desenvolvidos e há mais que uma rede. A inovação nos serviços é grande mas ainda não há uma integração na economia".
 
Para os diferentes players do mercado, existem segundo Benoit Falten vários incentivos ao investimento em RNG. No caso das incumbentes, têm interesse de ir a todo o lado com todos os serviços, em reorganizar a sua arquitectura de rede, em reduzir os custos de gestão e investimentos e em manter a suas quotas de mercado. Já para os operadores alternativos, a aposta em redes de alta velocidade permitir-lhes-á ultrapassar a incumbente em inovação de serviços, tornar-se independente da rede da incumbente, dar um passo em frente na distribuição de conteúdos e capturar clientes das redes de satélite e de cabo. Quanto aos operadores de cabo, terão de apostar igualmente nestas infra-estruturas como forma de expandir o seu portefólio de produtos e de proteger a sua posição de mercado. Para os municípios, estas redes permitirão a disponibilização de serviços aos seus cidadãos e empresas, poupanças de dinheiro e garantia da promoção da concorrência. E para os governos, a criação de incentivos para acelerar os investimentos em RNG será também fundamental, uma vez que só com redes de ultima geração é que poderão atrair investimento internacional, assim como o desenvolvimento de uma industria de alta tecnologia e uma revolução na forma de trabalhar.
 
O responsável da Yankee Group não tem dúvidas de que há lições a tirar dos projectos de RNG no terreno: o desenvolvimento destas redes não é economicamente viável em todas as regiões; instalar a rede é fácil, chegar ao cliente é complicado; a Fiber to the Home (FttH) não é apenas banda larga a maiores velocidades, mas um novo tipo de arquitectura de rede; e a velocidade e a tecnologia vendem.
 
Para Kip Meek, do British Broadband Stakeholders Group, a questão chave quando se fala de RNG é que a fibra permite a inovação. Mas há que saber até onde o mercado poderá ir e se as RMG trarão uma nova geração de benefícios. E decidir os timings dos investimentos, tendo em conta os benefícios destas novas redes face às que existem actualmente. "Investir agora ou mais tarde é a grande questão. Quem deverá investir? E como será o novo digital divide? Não há respostas certas. Ainda não se sabe o que fazer e isso pode trazer consequências graves", salienta.

Segundo este responsável, há vários requisitos e consequências a ter com conta nestas novas redes: opção por investimentos eficientes, reestruturação da cadeia de valor, novo modelo de negócio, switch-off do cobre, switchover do broadcasting e transformação das tecnologias de informação e vídeo, entre outros.

 
E para o consumidor? Qual o valor económico e social das RNG? A esta questão tentou responder Roger Darlington, do Ofcom Consumer Panel, para quem "não se pode esperar que os consumidores queiram serviços que ainda não conhecem. Nem poderemos prever o que será o valor das redes de alta velocidade no futuro". Mas o que se vê é um crescimento da procura e de maiores larguras de banda e antecipa-se que as RNG vão mudar tudo de uma forma abrangente. Um dos grandes desafios das actuais sociedades reside nas alterações climáticas e aqui as TIC, especialmente as RNG, podem ter um papel fundamental. E acredita que a percepção do valor das redes se pode alterar radicalmente caso se concretizem estas infra-estruturas. "Os investimentos dependem das decisões de cada player e dos apoios públicos nesta área. Mas o valor destas redes não se pode limitar ao valor para as empresas que as construíram. Tem que ser entendido num plano mais amplo, naquilo que podem fazer, positivamente, pelas sociedades, pela economia, pelo governo e pelos países".
 

Soluções múltiplas  
A par dos grandes desafios comerciais e de investimento, as RNG colocam ainda enormes desafios ao nível das arquitecturas de rede. Isto porque ainda não existe uma tecnologia standartizada para as redes de alta velocidade, havendo várias arquitecturas de FttH possíveis. Uma realidade perante a qual o operador terá de que fazer opções ou, eventualmente, como recomendam vários fabricantes, apostar numa solução híbrida. Segundo Carlos Barroqueiro, da CBE, que falada na sessão sobre "O Business Case e Arquitectura de Redes de Nova Geração", as soluções para as RNG estão em constante evolução e as relações dos cliente/operadores com os seus fornecedores são cada vez mais esbatidas.
 
Em Portugal, já está dado um grande passo em frente nesta área com a ORAC (oferta de referência de acesso a condutas), disponível desde 2005. Agora, há que avançar para colocar o país nos rankings das RNG, até porque se antecipa que dos actuais 30 milhões de ligações em FttH em 2008 se passe para 90 milhões em 2010. "Os ciclos de inovação geram ciclos de investimento", refere, destacando as três questões principais para a implementação das redes de alta velocidade: acesso às infra-estruturas civis da PT, "porque não é economicamente viável replicá-las"; facilitação da entrada no domínio privado (acesso a edifícios); e intervenção dos municípios como facilitadores do desenvolvimento do FttH, nomeadamente garantindo direitos de passagem, capacidade extra nas condutas e sua partilha e implementação da sua própria rede de alta velocidade.
 
As opções em termos de arquitectura de redes foram abordadas em detalhe por João Matos Dias, da Alcatel-Lucent. Para este responsável, das três soluções - Active Ethernet, Point-to-Point e PON - a terceira apresenta-se como a mais adequada, especialmente para o mercado de massas. Tanto em termos de CAPEX como de OPEX, favorecendo ainda um desenvolvimento sustentável da rede, pois é mais eficiente e tem uma cobertura mais alargada. No entanto, os investimentos em concreto terão de ser diferenciados em termos de zonas populacionais. E em Portugal, para ser possível uma rede de alta velocidade nacional terá de haver uma intervenção pública e regras bem definidas pelo regulador sectorial, "criando-se condições para que as zonas não tão viáveis possam ser contempladas"
 
Também Joaquim Santos, da Ericsson, admite que cada arquitectura de fibra tem as suas possibilidades e vantagens mas garante que a GPON será a que vai prevalecer e deverá começar a predominar no final deste ano. Até porque os operadores, sejam fixos ou de cavo, terão forçosamente que evoluir para a fibra se não querem ficar para trás. Mas nas opções "do puzzle do business case da fibra", que tem que ser bem pensado porque serão redes a implementar a 25 ou 30 anos, a própria evolução das redes terá uma palavra a dizer. "Não pode haver uma disrupção nas plataformas mas sim uma continuidade", havendo vários tipos de soluções a adoptar. "As redes terão que existir. Os investimentos em fibra são inquestionáveis. Mas a vertente regulatória tem um papel fundamental em todas estas decisões".
 
E o ponto de viragem é agora, na óptica de Paolo Campoli, da Cisco, já que se antecipa uma explosão das ligações em alta velocidade nos próximos anos. As grandes incumbentes estão a avançar com intenções de investimentos em fibra e o desafio é ir em frente com um plano de investimentos em FttH que gere receitas por via da combinação de serviços e com a oferta de uma banda larga simétrica. "A mudança para o FttH é uma oportunidade única e os operadores não podem errar", destaca. E refere um estudo dos projectos já em curso na Europa, que mostram as diferentes opções em termos de arquitectura para as redes e as vantagens do GPON em relação ao point to point (P2P).
 
Uma abordagem híbrida pode ser a solução a adoptar pelo mercado em termos de arquitectura de redes, uma vez que tanto o GPON como o P2P têm vantagens e desvantagens. A proposta é de Paulo Garrido, da Huawei, para quem no entanto, nesta gestão do investimento há soluções de evolução quer numa tecnologia quer noutra.
 
Nova abordagem regulatória
 
Bruxelas vai lançar uma consulta pública sobre as Redes de Nova Geração (RNG) a nível europeu, com uma duração de dois meses, ainda no decurso de Julho. A intenção é promover o debate em torno destas infra-estruturas e ver aprovada até ao final deste ano uma Recomendação sobre o tema. O anúncio foi feito por Roland Honekamp, da Direcção-Geral da Sociedade de Informação da Comissão Europeia, na sessão sobre
"Regulação das Redes de Nova Geração". O aparecimento de uma tecnologia nova terá previsíveis efeitos na indústria, no mercado e na sociedade. E a própria regulação terá que adaptar-se à nova realidade, pelo que há que tomar decisões.
 
De acordo com este responsável comunitário, é necessário identificar os incentivos mais apropriados para fomentar o aparecimento de redes de transmissão de alto débito, criando, ao mesmo tempo, as condições que tornem possível "a corrida ao investimento". O que pode mesmo significar "não intervir" quando isso ponha em risco a aposta dos operadores nesta área. E considera não se dever diminuir, em caso algum, os actuais níveis de concorrência. Para Roland Honekamp, a abordagem regulatória ex-ante da Comissão promoveu, até agora, a competição ao nível da infra-estrutura. A questão é saber se as mudanças que se estão a operar na tecnologia permitem aumentar o nível de intervenção. E falta ainda saber se estas mesmas alterações aumentam a possibilidade de concorrência ao nível das redes.
 
Uma coisa parece certa para muitos: o aparecimento das RNG implica alterações profundas no desenho dos mercados, de tal forma que a própria regulação do sector deverá ser forçada a mudar a sua forma de actuação. Assim o defende Margarida Couto, advogada da Vieira de Almeida & Associados. Segundo a jurista, se não se perceber o que é a regulação sobre as RNG, não é possível haver investimento nestas infra-estruturas. "O desenvolvimento destas redes é uma situação excepcional, um momento de viragem tecnológica que provavelmente não se voltará a repetir nas próximas décadas". Trata-se de uma "revolução tecnológica e de serviços", um cenário de "ruptura e não de continuidade. Poderá neste contexto a regulação ser continuista?", questiona.
 
Na sua óptica, é aqui que surgem todos os problemas. As RNG implicam investimentos por parte de todos. Com risco e incerteza do retorno. Tal pressupõe "a alteração das premissas básicas do actual quadro regulatório". Uma fórmula possível é levar a que as autoridades regulatórias intervenham menos. "O incentivo ao investimento passa por garantir a redução da intervenção regulatória", explica. Para a jurista, a questão é complexa. Para além dos níveis de regulação, falta ainda definir questões como o acesso às condutas, "um assunto ainda mal resolvido em Portugal", e a oferta de lacete local (OLL), pois o investimento em FTTC e FTTH pelo incumbente irá previsivelmente afectar os concorrentes que baseiam a sua oferta de serviços no lacete local. "Um quadro regulatório obsoleto é um agente capaz de inibir o investimento em RNG. É por isso essencial a criação de um novo quadro regulatório, mais estável e transparente, ajustado à nova realidade".
 
Nuno Peres Alves, advogado da Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva e Associados, é igualmente da opinião que o "nó do problema das RNG é o acesso às condutas". Portugal foi pioneiro nesta matéria e assim que entrou em vigor o Decreto-Lei n.º 68 de 2005 (que regula o alojamento de activos de redes de comunicações electrónicas em infra-estruturas públicas - rede viária, água e saneamento, entre outras) o acesso às condutas registou um crescimento assinalável. Mas a morosidade dos processos e algumas situações menos claras têm impedido um maior aproveitamento destes recursos por parte de alguns operadores. A intervenção dos reguladores deve ser sempre "proporcional e promover a concorrência e o investimento", o que pressupõe que os investimentos feitos sejam "razoavelmente garantidos". A resolução do Conselho de Ministros de 3 de Julho que define "como prioridade estratégica para o País no sector das comunicações electrónicas a promoção do investimento em RNG" é um bom princípio, mas confessa não entender ainda muito bem a natureza e o conteúdo deste documento.
 
Chinyelu Ouwurah, Head of Telecoms Technology da Ofcom, regulador britânico das comunicações, advertiu, que a concorrência não tem sido possível sem a propriedade do lacete local. E existe, no seu entender, uma clara diferença entre ter capacidade de deter o lacete local ou apostar numa oferta através de bitstream. "À medida que caminhamos para as RNG, é preciso garantir o acesso às infra-estruturas por parte dos operadores alternativos. Algo fundamental para a qualidade dos serviços prestados aos consumidores", frisou.
 
"O regulador vai ter de decidir. Bem ou mal, vai ter de decidir. E há vários interesses em presença, como ficou bem patente", referiu na sua intervenção o presidente da Anacom - Autoridade Nacional das Comunicações no final da sessão sobre regulação. Amado da Silva apelou para à participação de todos na consulta pública em curso sobre RNG, para "que não sejam sempre os mesmos a responder", com respostas que já se conhecem previamente. "A Anacom pode falhar. E falha, porque não é infalível. Mas tem sempre em atenção a opinião de todos", garante, porque "o papel do regulador é fazer equilíbrios". Nas RNG, o regulador terá de determinar quais são os "efeitos da incumbência" sobre essas redes, porque as RNG são "algo em que todos partem do mesmo, excepto no que a incumbência passada se arrasta para o presente". E pediu a todos os players do mercado "um comportamento fair".
 


As opções do sector público

Está criada a expectativa de que o sector público venha a ter um papel activo a desempenhar nas RNG. Mas como é que essa intervenção pode ser eficiente e efectiva? Actualmente, as decisões são difíceis nesta fase inicial das redes de alta velocidade, pela falta de informação consistente, pelo limitado número de intervenções e pela incerteza que rodeia o futuro destas redes. Matt Yardley, partner da Analysis Mason, baseando-se em 16 case-studies europeus de redes de alta velocidade, considera haverem cinco ordens de razões para que o sector público intervenha: resposta a falhas de mercado; objectivos de politica distributiva; desenvolvimento económico; drivers sociais; e expansão semi-comercial do sector público.
 
Na sessão sobre "O Papel do Sector Público nas RNG", apontou diferentes modelos de intervenção, tanto do lado da oferta como do lado da procura. "Não há certezas quanto às medidas a tomar e há um grande conjunto de hipóteses. Mas há factores que asseguram que a intervenção seja ou não eficiente", refere, nomeadamente o não entrar no mercado a não ser que haja uma boa razão para isso, usar um modelo de rede de acesso aberto, minimizar as barreiras na adopção de tecnologias, estimular e agregar a procura, antecipar os riscos através de uma estratégia detalhada e cumprir as regras das ajudas estatais. Este responsável deixa claro que "não há muita informação consistente. Todos poderemos aprender com este processo e fazer opções de futuro. Mas é impossível saber o que está certo".
 
Uma aposta ganha é a da cidade de Amesterdão, que avançou com uma rede própria em fibra óptica na cidade, tendo já ganho a aprovação de Bruxelas. O projecto foi apresentado por Dirk van der Woude, da CityNet Amsterdam, responsável pela sua gestão. E arrancou com base na percepção de que as novas infra-estruturas são essenciais e necessárias para o futuro da competitividade, permitindo crescimento económico e desenvolvimento sustentável. Este responsável defende que "as decisões técnicas não são neutras nos seus efeitos. Há que escolher cuidadosamente ou arrependem-se por décadas". O município pretende desenvolver uma rede saudável em termos económicos, com acesso aberto e que estimule a concorrência. Aqui, as parcerias público-privadas "são uma óptima solução para alcançar esses objectivos". Actualmente, a rede FttH de Amesterdão tem um total de 40 mil ligações, sendo o objectivo alcançar uma cobertura de toda a cidade em 2012, com o equivalente a 450 mil ligações a todos os cidadãos, empresas e organismos e entidades públicas.
 
Conteúdos de qualidade são segredo do sucesso
 

Uma apresentação de Carlos Rodrigues, da Deloitte, sobre "as Redes de Nova Geração e Acesso aos Conteúdos" serviu de mote a um animado debate entre representantes dos principais players do mercado da televisão, telecomunicações e conteúdos. Os actuais desafios que a indústria enfrenta, as alterações registadas nos hábitos de consumo, a evolução do investimento publicitário e os novos rumos que está a tomar e a revolução tecnológica foram temas abordados pelo manager daquela consultora.
 
A estação pública de televisão encara as RNG como fruto da natural evolução das tecnologias e tem vindo a acompanhar as mudanças que se estão a operar no sector e a inovar na área dos serviços, sobretudo através da disponibilização de vídeo on demand, emissões em plataforma móvel e no Youtube. Tudo para estar "cada vez mais próximos do consumidor", como refere Francisco Teotónio Pereira, da RTP. O responsável tem consciência que os desafios são cada vez maiores e a concorrência não pára de crescer. Sobretudo depois da massificação da Internet, que veio alterar distribuição e hábitos de consumo. Mas o que agora há de novo são as imensas possibilidades oferecidas pelas RNG, que permitirão "reduzir os custos, aumentar a qualidade da oferta e simplificar os processos". Mas vão também "afectar a localização das emissões". É que se antes ter meios de transmissão era determinante, hoje a explosão da oferta leva a que as televisões estejam a perder o controlo sobre a emissão e sobre as audiências. O que não deixa de ser um "desafio interessante" que a estação pública encara com optimismo. "A RTP tem de saber acompanhar estas mudanças. Estamos já a trabalhar em novos conceitos de interacção com o público". O único motivo de preocupação é a "ausência de um modelo de negócio que permita aferir com segurança como irá ser o futuro".
 
Mas quando se fala de novas formas de distribuição de televisão nas RNG é preciso notar que existem "vantagens e desvantagens, oportunidades, desafios e riscos". É um facto que estas redes estão para ficar e que devem ser encaradas como o futuro, como refere Jorge Graça, da Zon Multimédia. Na sua óptica, há uma notória fragmentação das audiências, à medida que a oferta de TV alarga. Mas há também um crescimento da procura por interactividade e por conteúdos. Na cadeia de valor do negócio de distribuição de televisão, as extremidades ganham cada vez mais importância, refere, pelo que do ponto de vista das plataformas tal traz novos desafios. Só que "tentar responder a isto é sempre um exercício de futurologia". Acredita, acima de tudo, que ver TV será sempre um acto de sociabilização, apesar de todas estas mudanças. "Haverá sempre valor na distribuição de conteúdos", defende. "Temos que continuar a apostar na nossa plataforma e em novos modelos de interacção e de interface". Reconhece, contudo, que o tradicional modelo de broadcast está em causa, nomeadamente por causa da crescente personalização das emissões e dos conteúdos.
 
Para Vera Pinto Pereira, da PT Comunicações, os novos modelos de negócio surgidos com a Web TV têm algumas limitações, nomeadamente a busca e navegação neste novo vasto universo de conteúdos. "É, ainda por cima, um modelo de negócio difícil de explorar, o que torna os meios tradicionais mais fáceis de gerir". Por isso, não hesita em defender que os actuais modelos de distribuição de televisão têm ainda uma vida longa. Acredita, acima de tudo, que a programação tradicional manterá o seu lugar de destaque, ao mesmo tempo que, naturalmente, se integrará nas novas ofertas. Por isso, as RNG são "fundamentais para um operador de cobre", pois garantem uma oferta cada vez melhor. Quanto aos conteúdos, assegura que são o driver do negócio da televisão, independentemente do meio de transmissão. "O desafio é garantir um acesso aos conteúdos equitativo para todos".
 
Num tom muito mais critico esteve Nuno Artur Silva, CEO das Produções Fictícias. Que aproveitou para acusar as televisões portuguesas pela falta de inovação que estas apresentam. Se todas as estações afirmam estar empenhadas nas novas tecnologias e garantem estar a fazer grandes investimentos, a verdade é que "apenas se preocupam com os seus principais produtos. Há, em Portugal, uma cultura de fuga ao risco". Garante, por isso, que os principais players do sector estão a "trabalhar num modelo que já está ultrapassado", mas que "ninguém parece dar-se conta disso". É que as estações de televisão "ainda funcionam na lógica obsoleta do prime time. Emitem conteúdos e mais nada". Para Nuno Artur Silva, falta sobretudo um "olhar crítico sobre a TV em Portugal". Porque o modelo tradicional "é que dá dinheiro. O negócio da Internet está a crescer, mas ainda não tem o posicionamento que podia ter".
 
Já José Louro, da Media Capital, garante que o ritmo que a evolução tecnológica está a impor às televisões é incrível. "Não o conseguimos acompanhar, não há modelo de negócio que suporte esta evolução", confessa. É por isso que admite que os canais generalistas são os que menos têm feito na área multimédia. "Qualquer projecto que temos está muito direccionado para o prime-time, não está preparado para o on-line". As mudanças tecnológicas são, na sua óptica, uma ameaça, pois "deixamos de ser os únicos a criar e a distribuir conteúdos. O nosso principal desafio são os nossos clientes fazerem, eles próprios, os seus conteúdos, as suas próprias televisões, e transmitirem para as suas próprias comunidades". O grupo que integra está sempre "a fazer experiências, mas não sabemos ainda o que é que os consumidores querem exactamente". E, embora admitindo que os operadores de telecomunicações oferecem a possibilidade de chegar aos clientes "como nunca antes", com "larguras de banda e uma rapidez inacreditável", acrescenta que "enquanto praticarem preços proibitivos não será possível evoluir", assegurou.
 
Também Pedro Passos Soares, da SIC Online, admite que há ainda um longo caminho a percorrer em muitos aspectos da indústria da televisão. Os agregadores de conteúdos, como chama às operadoras de TV, dependem cada vez mais "da qualidade, independentemente da indiferenciação e da igualdade de oportunidades e de acesso às novas tecnologias". E o acesso à banda larga, as velocidades de transmissão progressivamente maiores e os preços de armazenamento cada vez mais baixos serão determinantes para o futuro da web TV. A televisão actual é apenas um sistema de entrega. "A mudança de agora é sobretudo dominada pela interactividade. É uma questão simples" mas que coloca inúmeros desafios
 

Mas não restam dúvidas de que as RNG vêm trazer uma realidade diferente para todos, ao oferecerem as mesmas possibilidades para competir pelo mercado. Inês Valadas, da Soanecom, refere que com a OLL é difícil "garantirmos uma verdadeira experiência de TV aos nossos consumidores". Mas com redes de nova geração este problema já não se põe. "Não servem para competirmos com as redes de cabo. Elas oferecem muito mais do que isso": permite responder às necessidades de toda uma nova geração que lida de uma forma inteiramente nova com os conteúdos, independentemente da plataforma através do qual os consome. "É essa nova geração multi-plataforma e ubíqua à qual não podemos estar alheios", explicou. O principal desafio aqui é "garantir um acesso fácil e simples aos conteúdos, seja qual for a plataforma. São os conteúdos que vão servir de factor diferenciador das ofertas. É preciso acompanhar a evolução do broadcast para o demand, tentando encontrar modelos de negócio rentáveis para os operadores e óptimas condições para os consumidores".

Há que acelerar

Portugal não pode perder a oportunidade de ter uma rede de alta velocidade. De ser um país em rede e na linha da frente na Sociedade da Informação e do Conhecimento. Há que ter ambição e confiança. A mensagem vem do Coordenador Nacional da Estratégia de Lisboa e do Plano Tecnológico, Carlos Zorrinho, para quem "vivemos dias que não são fáceis, mas é exactamente nesses momentos que de definem os vencedores". E tudo indica que estamos no bom caminho para a construção das RNG, já que o Executivo avançou com uma Resolução a definir as opções politicas neste âmbito e o regulador sectorial tem em curso uma consulta pública para definir um quadro regulatório adequado.
 
"Há uma convergência entre os vários actores institucionais sobre a importância destes investimentos. E que é reiterada pelos operadores, que só pedem clareza de cenário e certezas regulatórias. A conexão em fibra óptica tem que ser um desígnio estratégico para o País. Para termos centralidade económica precisamos de conectividade", salientou Carlos Zorrinho no encerramento da Conferência da APDC. Que adiantou ainda que Portugal "tem que se posicionar e fazer da conectividade um dos seus principais trunfos competitivos. Haverá pioneiros e seguidores. Mas ser seguidor não é uma opção". E apelou para que todos, em particular os operadores de telecomunicações, "percebam que cada vez mais o essencial é sermos capazes de competir internamente para conseguir competir globalmente. Há que inovar. O paradoxo português deverá mudar com a nova geração e com a colaboração activa e competição aguerrida".

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