Evento APDC

10.07



Segundo encontro do Ciclo de Executive-breakfasts 2014

Saúde: um Setor em Convergência

"Saúde: um Setor em Convergência" foi o tema de fundo do segundo encontro no âmbito do Ciclo Executive-breakfasts 2014. Esta iniciativa pretende dar sequência ao trabalho desenvolvido em 2013 sobre "Tendências de Negócio e o Papel das TIC", com o debate em torno das tendências já identificadas e das respostas das TIC aos setores da Energia, Saúde e Banca.

A transformação dos sistemas de saúde está a acontecer em todo o mundo. E os temas em análise são idênticos, destaca Harry Reynolds, IBM Global Director for Healthcare Industry Transformation. Para o keynote speaker deste Executive Breakfast, todos os sistemas de Saúde têm que ter no seu centro as pessoas e as famílias. Porque são estes os seus clientes/pacientes. E neste processo de mudança na prestação dos cuidados de saúde das populações, há um conjunto de fatores a considerar que têm que ser analisados no seu todo, desde os resultados, a personalização, a adesão ao medicamento, à informação e analítica, à mobilidade, passando pelos tipos de cuidados de saúde, a saúde coordenada, custos, telemedicina, o financiamento e o envolvimento individual.

"Porque estamos a tocar todas as pessoas, o debate sobre o sistema de saúde tem que envolver uma multiplicidade de temas", refere. E envolver todos os intervenientes. Só assim se conseguirá "fazer a diferença". "Se quisermos mesmo ter uma mudança efetiva no sistema de saúde, em qualquer país ou situação, temos quer jogar todo o jogo. E ver como é que todas as temáticas se relacionam e interagem. E tem que se definir quais os objetivos e os resultados", explica, adiantando que ninguém tem a solução, embora "todos os que estão no jogo estão a jogar".

Para além dos custos, uma das questões centrais é saber como envolver as pessoas neste debate sobre o futuro da Saúde. E este envolvimento é determinante para garantir um sistema que seja sustentável, mais eficaz, com mais resultados e mais próximo das pessoas e das suas necessidades. A utilização da tecnologia assume aqui um papel fundamental, porque "traz o melhor para todos e em todo o lado". Como prova o caso da telemedicina. Para Harry Reynolds, "se não usarmos todas as capacidades da tecnologia, não vamos fazer a diferença". E não tem dúvidas de que estes são "tempos excitantes", já que se atravessa "uma fase de mudança sem precedentes na indústria da saúde", assistindo-se a uma mudança revolucionária na entrada dos serviços, nos processos operacionais e na utilização da informação. "Não podemos ser um país desenvolvido sem um bom sistema de Saúde. Esta é uma mudança entusiasmante. Podemos fazer a diferença num mundo em enorme transformação".

HÁ MUITO POR FAZER
No debate que se seguiu, moderado por Cristina Semião, em representação do projeto Tendências, da APDC, estiveram presentes responsáveis de projetos públicos e privados de saúde em Portugal. E na sua visão, ficou bem claro que a mudança já está a acontecer em muitas áreas, mas que há ainda muito por fazer no que respeita à transformação do sistema de saúde nacional. Nomeadamente no sistema público de saúde e no processo de integração entre cuidados primários e hospitalares, que tem atravessado "altos e baixos" nos últimos anos, como refere Pedro Roldão, administrador do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.  Uma das grandes questões é, para este responsável, a gestão da  informação e a forma como ela circula no sistema, que tem que se centrar cada vez mais no cidadão. Há que definir estratégias, processos e objetivos. "Há muito que fazer neste momento e há muito que está a ser feito", garante.

Começando por destacar que na Saúde pública e privada, nenhum é melhor que o outro, mas são apenas diferentes, António Serrano, administrador da Lusíadas Saúde, admite no entanto que a área pública tem muito mais ‘espartilhos', o que torna a decisão difícil. E defende que este é o momento de repensar os modelos da saúde. "Faz sentido nesta fase olhar de forma diferente para a prestação de cuidados de saúde, quer públicos ou privados", adotando um conceito de sistema de saúde. No entanto, este não é um tema fácil, porque as posições estão extremadas e persistem muitos fatores ideológicos.

Acresce um "estado condicionado na forma como lha a saúde". O que se traduz numa persistente segmentação entre público e privado que não se justifica. Para este gestor, que está preocupado nomeadamente com a lógica dos hospitais públicos de dependência permanente da cadência do desenvolvimento tecnológico, é fundamental enquadrar a prestação de saúde através de uma arquitetura mais integrada entre público e privado. Só assim se conseguirá gerar eficiência para o país. "Temos que ter um modelo integrado de Saúde, redefinindo o modelo de negócio no sentido de apostar na prevenção. Temos que orientar o modelo de negócio não para tratar a doença mas para a evitar", diz.

Também Ivo Antão, administrador da Espírito Santo Saúde, considerando a saúde como um setor complexo, defende a definição de uma arquitetura de sistema que permita o acesso de todos à informação. E tendo em conta que se trata de uma área de comportamentos humanos, com uma multiplicidade de atores, é fundamental que todos estejam em sintonia. Acresce que os próprios utilizadores terão de ser envolvidos, pois só assim se poderão controlar comportamentos. "O grande desafio é ter uma participação articulada neste jogo. Quem tem o poder da decisão é humano e está habituado a decidir sozinho", destaca.

E não restam dúvidas que nos processos na saúde, tudo está muito atrasado em relação a outros setores de atividade. "Ainda não automatizámos e padronizámos o suficiente, retirando todas as potencialidades das TIC. Muita coisa está para acontecer", antecipa Inácio Brito, administrador da José de Mello Saúde, que destaca a extrema complexidade do sistema atual de saúde. Por isso, defende a urgência de criar um padrão comum a todos os players, públicos ou privados. Até porque não é nesta área que se faz a competição, mas sim pela qualidade do serviço prestado.

TIC TEM POTENCIAL ENORME DE MUDANÇA
Quanto ao papel e aos benefícios e oportunidades trazidas pelas TIC ao setor, todos são unânimes em reconhecer o seu enorme potencial e os ganhos evidentes que justificam uma adoção crescente de tecnologias. No entanto, há ainda muito a fazer. António Serrano destaca que na área tecnológica, "precisamos de pôr o mercado a funcionar.

Para isso, tem que se saber quais as soluções disponibilizadas". Não tendo dúvidas de que "há toda uma multiplicidade de aplicações úteis que têm que ser integradas", considera que o setor não pode estar dependente de soluções mais globais. E a multiplicidade de tecnologias é um desafio, porque implica que as decisões sejam tomadas em grupo, com multidisciplinariedade, salienta Ivo Antão. Pedro Roldão chama também a atenção para que, apesar das soluções tecnológicas existirem e haver apetência para a sua adoção, os próprios utentes constituem também um bloqueio, pela falta de relação pessoal e de empatia que a utilização de aplicações tecnológica traz. Nomeadamente na telemedicina, onde outro dos desafios é a organização do trabalho médico.

Mas numa altura em que a informação se multiplica e os clientes/pacientes têm elevados níveis de conhecimento acesso, o setor da saúde ainda regista uma grande falta de conhecimento, como refere Ivo Antão. "Os sistemas de informação permitem armazenar a informação sobre o paciente. Há uma miríade de dispositivos que permitem monitorizar um vasto conjunto de dados". E no setor, os prestadores têm que estar preparados para conseguir jogar com a informação. Com enfoque na prevenção, destaca, considerando que "este é um setor complexo. Tem que se desenhar uma arquitetura de sistema que permita o acesso de todos à informação. Acresce para o prestador o desafio de saber que tipos de dados devem ser monitorizados e que tipos de respostas existem. Para depois se definir o papel de cada um dos players no processo. E aqui, terão que se alinhar incentivos. E este responsável não tem dúvidas: "este é um desafio enorme para todos os envolvidos".

Inácio Brito, considerando que o relacionamento paciente/médico é hoje bastante mais equilibrado e que a medicina personalizada tende a desaparecer, pois as novas gerações fazem uma medicina de equipas e têm uma visão diferente, entende que há um caminho a fazer no sentido de definir bem o que se pretende em termos de informação. Uma espécie de ‘acerto cultural" onde terão que existir "indicadores de processo e de resultados clínicos. Temos que abraçar este processo. É uma oportunidade e uma prioridade".

Também António Serrano entende que "estamos todos a aprender com a responsabilidade de dar resposta adequada à multiplicidade de informação que está cada vez mais à disposição do paciente. Mas o conhecimento continua muito centrado no médico". E adianta que "tecnologicamente, Portugal tem muito para exportar e para partilhar na saúde. Incluindo exportar competências". E há já várias experiências de internacionalização da saúde, incluindo no setor público, como refere Pedro Roldão, já que o CHUC tem vindo a desenvolver várias experiências de telemedicina e de internacionalização, como o projeto Coimbra Health. Aqui, Ivo Antão destaca que a telemedicina, apesar dos casos de sucesso já no terreno, ainda provoca muita desconfiança na atividade médica. Para a incentivar, urge definir um sistema de recompensa. Refere ainda que a tecnologia "assume um papel cada vez mais ativo no processo de decisão. Há cada vez mais decisões compostas na Saúde", embora a decisão final continue a ser sempre humana.
 

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